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Entrevista André Martins

  19 março 2018

Nome, idade, numero de filhos, anos de ligação ao clube, função no clube, treinador de nível 1?

 

André Martins, 24 anos. Sem filhos

Atualmente estou na minha décima época na ADCEO, três delas como jogador. Nesta época estou no comando da equipa técnica de Iniciados A.

Treinador de Nivel I (UEFA C).

 

Conte-nos um pouco do seu percurso profissional para escolher esta profissão de treinador?

 

Sempre estive ligado ao desporto, mais concretamente ao Futebol. No Ensino Secundário concluí o Curso Tecnológico de Desporto, seguindo o mesmo caminho na Universidade.

Licenciei-me em Educação Física e Desporto e neste momento estou a finalizar o Mestrado em Ensino de Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário, onde também estive ligado ao Futebol com grandes nomes da área como Jorge Castelo, Helena Costa e ainda António Fonte Santa.

Desde cedo que me questionava o que diriam e pensavam os treinadores, porque escolhiam certos jogadores, porque achariam que este era melhor que o outro, como montavam o treino, como viam o jogo.

Durante os anos em que fui jogador federado sempre ouvi e tentei aprender tudo o que os meus treinadores me ensinavam. Todas as épocas tive bons treinadores que me ajudaram a compreender não só a minha posição no campo, mas também toda a dinâmica de jogo. Essa paixão pelo jogo e pelo treino foi crescendo e hoje aqui estou, no sétimo ano como treinador no clube que me viu crescer para o futebol.

 

Qual o motivo da escolha da adceo para ser treinador?

 

A ADCEO foi o clube que me viu crescer para o futebol e que está presente em quase metade da minha vida, como jogador comecei a dar os primeiros passos na escola de futebol Crispedras, no ano de transição para os Iniciados entrei no clube como jogador. Ao fim de 3 anos, por falta de tempo, deixei de conseguir conciliar os treinos com a escola e com o estágio na Federação Portuguesa de Taekwondo tendo por isso abandonado a equipa.

Após essa etapa, apareceu o Mister Paulo Lopes que me convidou para o ajudar a ele e aos restantes treinadores (Mister Rui Lopes e Mister Jorge Almeida) nos treinos da equipa de escolas, fui ajudando e no final da época fui convidado pelo responsável pela formação de base da ADCEO (Projeto de Formação ADCEO) a integrar a equipa técnica de escolas e acompanhar o Mister Jorge Almeida nos jogos, tendo sido eles os grandes responsáveis por neste momento ser treinador, devido a tudo aquilo que me ensinaram.

Assim sendo, não poderia haver melhor começo no Futebol formação pois continuava no clube que me viu “nascer” neste mesmo desporto.

Qual o número de horas que dedica a esta profissão? considera que atualmente estes escalões são bem remunerados ou deveria haver uma profissionalização?

 

Penso que não seja possível quantificar o número de horas que dedicamos a esta modalidade, para além dos treinos semanais, mais o jogo ao fim de semana, ainda dedicamos tempo a planear os treinos, em formas de contrariar o jogo do adversário, a pensar nos aspetos que fizemos bem ou menos bem na última partida, sendo complicado quantificar o número de horas que dedicamos a esta modalidade.

Relativamente à remuneração, não vivemos daquilo que recebemos como treinadores da ADCEO, neste clube faço-o “por amor à camisola” tentando sempre elevar o nome desta associação o mais alto possível.

Deveria seguir-se o caminho da profissionalização pois as áreas que abrangemos não se limitam só a apenas colocar pinos, distribuir bolas e dirigir 10, 15, 20 jovens a correr. Desenvolvemos áreas como a Pedagogia, Metodologia de Treino, Técnicas e Estratégias de Ensino, promovemos valores associados a uma vida integrada na sociedade.

Num clube de bairro como a ADCEO é fácil conseguir transmitir aos atletas toda a formação e as dinâmicas que pretende, uma vez que estão limitados  a um campo de futebol com horários definidos, a poucos espaços para palestras?

 

Como digo aos meus atletas, somos um clube de bairro com uma grandeza enorme e acho que isso tem vindo a ser cada vez mais uma realidade, todas as nossas equipas denominadas “A” disputam a maior divisão da Associação de Futebol de Lisboa tendo já este cube disputado o Campeonato Nacional de Iniciados. As nossas equipas têm vindo a ser cada vez mais competitivas, tornando cada vez mais difícil a tarefa dos denominados “clubes grandes”.

Relativamente às dinâmicas é claro que com apenas um campo, com horários reduzidos devido ao elevado número de equipas que representam a ADCEO e estarmos restringidos a um treino de campo inteiro uma vez por semana dificulta o nosso trabalho. Nós treinadores conhecemos a realidade do clube, por isso planeamos as nossas unidades de treino com base nos recursos espaciais, temporais e materiais que temos disponíveis, assim essas dinâmicas serão sempre transmitidas seja num campo independentemente do seu tamanho.

Claro que salas para palestras, material de vídeo-projeção entre outras ferramentas iriam facilitar muito o nosso trabalho como treinadores, mas penso que cada vez mais está a ser feito um esforço de forma a desenvolver o clube nesse aspeto.

Identifique-me 5 propostas que em sua opinião são necessárias para que um clube possa ser bem sucedido no futebol?

 

O principal em qualquer clube de topo é a organização, sem isso, nada funciona. É necessário também ter em conta o meio onde o clube se insere e trabalhar para e com esse mesmo meio social em que está inserido. A qualificação das pessoas que lideram não só os clubes, mas também as equipas são fundamentais. Os recursos materiais devem existir em bom número e boas condições, só assim será possível chegar ao sucesso. Por fim, a exigência e o grau de compromisso para com o clube que representamos deve ser máxima, devemos focar-nos em trabalhar sempre bem e sempre comprometidos com os valores do mesmo, seja ele da última ou primeira divisão.

 

Em que medida o trabalho do treinador é necessário para a formação dos atletas?

 

Hoje em dia estamos a ver cada vez mais uma sociedade de jovens “ligados à tomada”, seja através do telemóvel, da playstation ou da televisão. Assim, poder transmitir a alguns deles os valores associados ao desporto e os benefícios da prática da atividade física é por si só uma das formações que os treinadores dão aos atletas.

Ao longo de toda a minha vida académica tive cadeiras como a Psicologia e a Pedagogia que atualmente me auxiliam muito a lidar com os jovens, ajudando-me na forma em como me devo dirigir aos atletas e como os conseguirei motivar, assim sendo, como treinadores temos de garantir que eles não desistem dos seus objetivos, devemos apoiá-los sempre, passar horas a fio se for preciso, estipulando objetivos realistas. Devemos vangloriá-los quando atingem esses objetivos, mas também estar presentes quando não conseguirem concretizar orientando-os em momentos de possível frustração.

Enquanto treinadores complementamos também o “trabalho” que os pais têm com os seus filhos, criando futuros Homens não só fisicamente mais saudáveis, mas também psicologicamente mais fortes capazes de viver numa sociedade cada vez mais exigente.

Para si um atleta é um diamante em bruto que é necessário lapidar ou ele já vem lapidado (com uma posição no campo e um modo de jogar) e basta somente adequar?

 

Todos os atletas são pequenos diamantes, alguns com mais ou menos dificuldades cabendo-nos a nós ajudá-los a ultrapassá-las. Contudo, é cada vez mais difícil de encontrar um diamante em bruto, daqueles que não engana.  Com o avançar dos tempos temos visto cada vez mais atletas “robotizados” que não pensam por si, com pouca iniciativa no jogo, que não visualizam o jogo na sua cabeça mas sim na de quem está no banco a comandar como se de um jogo de Playstation se trata-se.

Já mudou a posição de um atleta que antes era defesa para avançado por exemplo?

 

Sim, várias vezes. Penso que isso acontece muito nos escalões mais baixos, ou seja, no futebol de 7, nesses escalões um atleta tanto pode ser médio, como avançado ou até jogar a lateral.

Outro dos escalões onde isso também se verifica é na transição do futebol 7 para o futebol 11, onde um atleta pode ser médio no futebol 7, mas sendo as características do futebol 11 diferentes pode adaptar-se melhor à posição de avançado ou mesmo defesa.

Tudo depende das características do atleta e daquilo que o treinador pretende.

 

Existe espaço para o treinador formar os atletas condignamente?

 

Não. Cada vez mais a cultura de vitória está presente, seja num escalão de benjamins ou num escalão de juvenis, se essa cultura de vitória não vier do treinador vem com certeza dos pais ou dos encarregados de educação. Penso que muitas vezes veem nos filhos a capacidade de se tornarem em algo que eles nunca foram capazes de ser e isso acrescentando uma maior pressão sobre os jogadores.

Todos sabemos que o futebol é um jogo de emoções fortes, contudo acho que muitas vezes ocorrem excessos que não deveriam acontecer.

Sou o primeiro a assumir perante os meus atletas sempre que erro, mas assistir a um jogo de benjamins ou infantis e o jogo passar para segundo plano quando existem agressões verbais e até agressões físicas vindas da bancada ou mesmo dentro de campo, é de lamentar. Não deve ser este o motivo pelo qual vamos aos campos todos os fins de semana.

 

O que ganha um atleta que treina consigo? Enquanto atleta e enquanto jogador?

 

Tenho a sorte de ganhar muito mais com eles do que aquilo que ganham comigo.

Ganham um amigo, ganham um treinador muito exigente e lutador, sou e serei sempre o primeiro a protegê-los de todas as críticas externas à “nossa família”, sou o primeiro a dar o “corpo às balas”, contudo, eles sabem que sou também o primeiro a criticar se achar que não estão a cumprir com a promessa que me fizeram no início da época, darem sempre o seu melhor, dito isto, sabem também que sou o primeiro a ouvir os seus problemas, dúvidas procurando sempre o seu máximo empenho, dedicação e motivação.

Como jogadores, mais do que elementos técnico-táticos, ganham responsabilidade, um enorme grau de companheirismo, a capacidade de serem exigentes com eles próprios, mas ganham sobretudo, compromisso para com o clube que representam, essa, é para mim a principal característica que quero que tenham sempre quando fazem parte da minha equipa, que sejam capazes de respeitar e dar o máximo pela grandeza da ADCEO e por tudo o que esta instituição faz por eles.

Como referi anteriormente, ganho muito mais com eles do que eles comigo, mas não existe nada melhor que um atleta que esteve na minha equipa à 2, 3, 4 anos manter o contacto comigo para pedir conselhos ou até passarem na rua por mim e fazerem questão de me cumprimentar.

Prefere um jogador excecional mas que não consegue controlar ou um jogador regular que consiga progredir consigo?

 

Prefiro um atleta que queira evoluir, que queira treinar com o máximo empenho, que me procure sempre que precisa de ajuda para ultrapassar as suas limitações, que dê ideias, que tire dúvidas, que questione o porquê de ser daquele e não de outra forma. Esses sim são os jogadores de topo, um jogador excecional que finta tudo e todos, mas que não tem cabeça que acompanhe os seus pés nunca irá passar de uma promessa no futebol, vai olhar para trás e pensar nos “e se…”, todos vão dizer que era craque, mas nunca deu em jogador.

Assim sendo penso que um jogador que apesar de não ser excecional mas que tenha muita vontade de trabalhar irá chegar muito mais longe, é com esses que me dá gosto trabalhar.

Quais são os desafios que a direção lhe lançou para este ano e quais são os desafios que se lançou a si mesmo?

 

Como equipa A, o foco lançado pela direção sempre foi respeitar a instituição, garantir a manutenção na divisão mais alta da Associação Futebol de Lisboa e ter sempre um comportamento digno da ADCEO em qualquer campo.

Mais complicados de atingir são os desafios que lanço a mim próprio e à minha equipa, que são alterados todas as semanas, sendo o principal fogo a manutenção na Divisão de Honra, desde desafios pontuais para as diferentes fases da época, a desafios específicos para cada jogo, posso dizer que já concretizei alguns, mas também já falhei outros.

Por fim, estipulo alguns objetivos aos meus jogadores, objetivos individuais e coletivos, fazer x pontos em x jogos como um exemplo de objetivo coletivo, e por exemplo fazer x golos numa época, ou x assistências, como objetivo individual. Procuro algo que os motive, algo que os leve a superarem-se a si mesmos durante os jogos, muitas vezes um jogo pode estar fácil e a equipa ter uma quebra de rendimento e é a vontade de cumprir estes pequenos objetivos que os levam a ter um aumento de intensidade e, consequentemente de rendimento.

Quais as propostas de melhoria que deixa ao adceo no campo do futebol?

 

Existe sempre espaço para melhorias, não nos devemos conformar com o que temos, deve existir sempre a vontade de querer mais e melhor quer ao nível dos recursos humanos, temporais e espaciais.

Espero que dentro do departamento de futebol continuem com o bom trabalho que têm vindo a desempenhar, o novo relvado sintético é prova disso mesmo, espero que seja possível uma sala de reuniões onde nos possamos sentar com a nossa equipa técnica e discutir os prós e contras do jogo que fizemos, penso que podemos optar sempre por iniciativas que envolvam a comunidade de forma a ligar e a trazer novas pessoas ao clube.

Apesar dos recursos financeiros não serem os melhores penso que poderíamos desenvolver mais a área dos torneios durante as interrupções letivas, sendo o ponto alto o torneio de final época, os nossos atletas merecem, após uma longa batalha durante o ano.

Contudo, mais uma vez afirmo que entendo que esta seja a parte menos forte do clube pois o recurso financeiro é algo que envolve um esforço conjunto de todos os elementos da ADCEO.

 

Qual o seu modelo de jogo preferido?

 

Sou apologista da filosofia, formar a ganhar, assim o modelo de jogo preferido passa sempre por vencer.

Um treinador deve ter sempre as suas ideias e convicções, o modelo não deve ser inflexível, deve estar assente em princípios que são adaptáveis aos diversos contextos de jogo. O nosso modelo de jogo não pode ser o mesmo se estivermos a ganhar ou a perder. Quando o contexto muda, as circunstâncias mudam também apesar dos princípios se manterem, tendo assim a forma de chegar ao objetivo de ser alterada.

É fundamental assentar o modelo de jogo num esquema bem planeado para que sempre os nossos atletas entrem em campo saibam que se devem adaptar consoante as circunstâncias do jogo, pois se o futebol não é um jogo estático, o nosso modelo também não o deve ser, isso só nos tornaria completamente previsíveis.

 

Onde vê a ADCEO daqui a 5 anos?

 

Gostaria de ver a ADCEO a disputar mais um campeonato nacional em mais do que um escalão de forma contínua, a bater-se com os grandes do futebol português.

Gostaria de ver a ADCEO com outro tipo de infraestruturas, com um campo maior, uma bancada mais extensa, que os séniores do clube estivessem a disputar outro tipo de divisão com maior destaque.

Teria muito gosto também, que todas as outras modalidades e infraestruturas do clube continuassem a melhorar e a aumentar, cheias de força e garra por representar esta grande instituição.

Onde quer estar o treinador André daqui a 5 anos?

 

O treinador André estará certamente com o Nivel 2 (UEFA B), essa é a grande certeza que tenho.

Penso que o objetivo de todos os treinadores passa por treinar uma equipa do escalão sénior, contudo estaria a ser hipócrita se dissesse que recusaria um projeto de formação num dos grandes clubes do país. Se daqui a 5 anos estou a treinar séniores da ADCEO, não sei, mas porque não? A verdade é que o meu objetivo passa por atingir um dos três grandes e se para lá chegar tiver que passar por todas as divisões, que assim seja.

Por isso, daqui a 5 anos esteja onde estiver, acima de tudo quero estar feliz, com o sentimento de dever cumprido, se assim não acontecer espero pelo menos ter tido a oportunidade de tentar.

 

O treinador André é hoje um melhor homem ou um melhor treinador de homens?

 

Neste momento estou feliz com o que alcancei, se sou um melhor homem ou melhor treinador de homens, penso que ambos.

Sou um melhor homem por tudo o que aprendi não só com os atletas que estiveram/estão comigo, mas também com todas as pessoas que integraram/integram as minhas equipas técnicas. Mesmo fora delas, mas dentro do clube, aprendo diariamente com todas as pessoas e é também graças a elas que sou um homem mais ponderado, maduro e consciente da minha responsabilidade no clube.

Atualmente sou um melhor treinador de homens, pois busco melhorar a cada passo, procurando corrigir os erros passados focado sempre no sucesso da ADCEO.