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Entrevista com Tiago Franco

  01 fevereiro 2018

Hoje Jorge Farromba entrevista mais um dos treinadores da ADCEO, numa registo para conhecermos também melhor o Tiago, as suas ideias e as suas propostas.

Nome, idade, numero de filhos, anos de ligação ao clube, função no clube, treinador de nível 1?

 

Tiago Franco, 29 anos. Sem filhos.

Estou na minha segunda época no clube tendo trabalhado na época passada simultaneamente como treinador principal na equipa de juvenis B (sub-16) e adjunto na equipa de infantis 11. Esta época iniciei novamente como treinador dos Juvenis B tendo a partir de janeiro passado para a equipa de Juvenis A.

Sim, Treinador de Nível I (UEFA C).

 

Conte-nos um pouco do seu percurso profissional para escolher esta profissão de treinador?

 

Sou professor de Educação Física à 5 anos.

Desde cedo estive ligado ao desporto e a várias modalidades tendo tirado um curso de desporto no ensino secundário seguindo o mesmo caminho na faculdade. Como muitos da minha geração ganhei o bichinho de ser treinador através das várias versões do jogo Championship manager e Football Manager sem ter na altura a mínima ideia do que seria o treino e processo que nos leva ao objetivo final.

Após a entrada na faculdade, apesar da minha área de formação não ser relacionada com o treino, esse percurso acabou por ir surgindo de maneira natural através da presença em diversas formações relacionadas com o futebol, o treino e o próprio jogo.

A oportunidade de integrar uma equipa técnica e assim vivenciar o dia-a-dia deste processo, desde o planeamento à operacionalização, surgiu através do convite de um grande amigo que me abordou com o intuito de integrar com ele, na qualidade de treinador adjunto, uma equipa de futsal no escalão de Juniores (sub-19) alargando-se esse convite também à equipa sénior também treinada por ele.

Com o meu regresso a Lisboa após a conclusão do meu percurso académico deu-se a minha entrada no futebol passando desde ai (2013) por clubes como o Real Massamá, Atlético Clube de Portugal e ADCEO em diversos escalões desde Infantis 7/11 até Juvenis.

 

 

Qual o motivo da escolha da adceo para ser treinador?

 

A ADCEO apareceu no meu percurso através de um convite do meu amigo João Martins à data coordenador para o futebol da ADCEO.

Conhecendo-me dos tempos em que foi coordenador da escola de formação Germano Figueiredo do Atlético Clube de Portugal, e sabendo que procurava nesse ano um local que me permitisse concluir o meu curso de Treinador de Nível I (UEFA C), abordou-me no sentido de o concluir ao comando da equipa de Juvenis B (sub-16) do clube.

O projeto que me foi apresentado foi do meu agrado, as condições dadas eram bastante positivas e assim se deu a minha entrada no clube.

 

Qual o número de horas que dedica a esta profissão? considera que atualmente estes escalões são bem remunerados ou deveria haver uma profissionalização?

 

Em termos do que é quantificável posso dizer que treinamos 3 vezes por semana durante sensivelmente 1h15/1h30 mais o jogo ao domingo. Até chegar ao treino e ao jogo é impossível contabilizar as horas que dedicamos a esta “profissão”.

Desde o planeamento, à criação de exercícios e modelo de jogo, reuniões com a equipa técnica, com a coordenação, planeamento de jogo, acompanhamento dos atletas fora do contexto treino/clube, mais a constante procura de conhecimento inerente a tudo o que envolve o fenómeno futebol, leitura de artigos, entrevistas a pessoas ligadas ao meio e ao treino, etc, etc, dedico muito mais tempo o referido anteriormente.

Relativamente à remuneração, mentiria se dissesse que o futebol no contexto em que estamos inseridos é bem remunerado. Não o é.

É evidente que deveria seguir-se o caminho da profissionalização, uma vez que muitos de nós têm mais gastos do que ganhos com o futebol. Alem disso todas as áreas em que nos especializamos para estar o mais preparado possível para dar conta de todos os problemas e condicionantes que vão surgindo ao longo do tempo exigem grande esforço financeiro.

 

 

 

 

 

Num clube de bairro como a adceo é fácil conseguir transmitir aos atletas toda a formação e as dinâmicas que pretende, uma vez que estão limitados a UM campo de futebol com horários definidos, a poucos espaços para palestras?

 

Com os três escalões mais altos na formação a disputar a divisão mais alta da nossa associação (Divisão de Honra) acho que já não se pode considerar a ADCEO só um clube de bairro.

Não é fácil realmente.

Apesar de termos os meios que a direção nos pode facultar, e atenção, são bastante melhores que em alguns clubes que conheço, há sempre espaço para melhorar. Sala para palestras, reuniões, material de vídeo-projeção seria algo que nos poderia levar para patamares ainda maiores.

Relativamente ao campo não há grande coisa a fazer. É o que há e temos de viver com isso. Todos gostaríamos de ter mais espaço e tempo para treinar, cabe a nos treinadores fazer o melhor com as condições que temos. Cabe a nós otimizarmos os recursos e rentabilizar o que temos fazendo dessa forma os possíveis e impossíveis para conseguirmos o objetivos.

Não vale a pena andar a chorar do que não temos. Cabe a nós através da nossa dinâmica e organização planear de forma a aproveitar o que há disponível e rentabilizar o que existe.

 

Identifique-me 5 propostas que em sua opinião são necessárias para que um clube possa ser bem sucedido no futebol?

 

Organização, sem este princípio, nenhum clube, nem nenhuma empresa funcionam.

Trabalhar em prol da sociedade e do meio em que se encontra. Através disto qualquer clube tem a possibilidade de mostrar as suas gentes que está ali em prol delas. Como consequência o aproximar dessas pessoas trará benefícios ao clube de diversas formas.

Ambição e exigência. Nunca estar satisfeito com a situação, ambicionar sempre mais do que o que já temos é o que nos leva a melhorar cada vez mais. A exigência e seriedade que metemos nessa procura de melhoria leva-nos a uma superação cada vez maior.

Apetrechar-se de recursos humanos qualificados e multifacetados.

Criar uma identidade própria. Desta forma atrair para os quadros pessoas que se identifiquem com o clube de forma a haver um conforto de ambas as partes.

 

Em que medida o trabalho do treinador é necessário para a formação dos atletas?

 

É importante como um professor. Talvez até como um educador.

Muitos dos “nossos” atletas passam connosco grande parte da sua semana. São treinos, pré treinos, pós treinos, concentrações, jogos…são muitas horas de convivência e de diálogo. Com tantas horas de convivência o foco não pode ser só o lado desportivo. Acaba por haver uma ligação muito maior que o treinador/jogador.

Faz parte das nossas funções perceber o jovem que está nas nossas mãos e ao nosso cuidado e o que podemos fazer de forma a ajuda-lo a ultrapassar quaisquer problemas que possam existir, suprimir quaisquer dúvidas que possam aparecer.

Não somos pais, mas acabamos por ser um complemento para o trabalho que os pais desempenham no seu dia-a-dia.

Este trabalho é tão importante, que dentro dos cursos que são necessários para podermos executar a nossa atividade é dada muita importância a disciplinas como Psicologia, Pedagogia ou Didática.

 

Para si um atleta é um diamante em bruto que é necessário lapidar ou ele já vem lapidado (com uma posição no campo e um modo de jogar) e basta somente adequar?

 

Não diria um diamante em bruto. De vez a vez aparece sempre um diamante que nos deixa com o sorriso mais largo, mas isso é cada vez mais raro.

Hoje em dia os miúdos começam a jogar desde cedo em escolas o que leva a que estejam mecanizados cada vez mais cedo. Antigamente com o futebol de rua era muito mais frequente aparecerem os tais diamantes.

Apesar disso há sempre algo para lapidar, alguma característica escondida que podemos potenciar e fazer a diferença na formação desse atleta.

 

Já mudou a posição de um atleta que antes era defesa para avançado por exemplo?

 

Já. Varias vezes, inclusive esta época. Principalmente nos mais jovens pois acho que só têm a ganhar passando pelo máximo de contextos possíveis. No Futebol 7 ou Infantis de 11/9.

A partir dessa idade já temos de perceber as características de cada um de forma a não estarmos constantemente a mudar o jogador de posição e assim estagnar a sua evolução.

Apesar disso já aconteceu em jogadores mais velhos. Achar que numa posição o jogador não está a desempenhar um papel muito importante e ver se tem características para jogar noutra de forma a que as suas qualidades possam fazer a diferença. Isto sempre com o acordo do jogador de forma a não o obrigar a fazer nada contrariado.

 

Existe espaço para o treinador formar os atletas condignamente?

 

Não é fácil. Olha-se muitas vezes para as crianças/jovens como a galinha dos ovos de ouro hoje em dia. Isso faz com que muitas vezes os atletas tragam uma pressão muito grande fora do contexto clube.

A cultura da vitória cada vez mais presente, mesmo nos escalões de formação, acaba por pressionar todos os agentes.

Mesmo que não seja essa a cultura do próprio clube, ela vem dos Pais ou dos próprios jogadores. Muitas vezes até do próprio treinador com a ambição de “chegar lá” o mais rápido possível acabando por descurar na formação do atleta.

O que ganha um atleta que treina consigo? Enquanto atleta e enquanto jogador?

 

Não sei dizer o que ganha. Sei o que procuro que ganhe comigo.

A única coisa que sei que ganha é um amigo e um companheiro para o que precisar. Procuro ter uma relação próxima como todos os atletas. Se existir bom ambiente e um sentimento de camaradagem entre todos, meio caminho para trabalhar sem problemas está feito. Se houver a abertura para falar de tudo, problemas, alegrias, as mais variadas coisas, conseguimos perceber se o jovem está “disponível” para treinar e corresponder as nossas exigências.

Depois procuro que ganhem responsabilidade, capacidade de trabalho, capacidade de sacrifício e compromisso para com os colegas, treinadores e principalmente com a instituição. Procuro transmitir-lhes que a exigência para com os colegas, para com os treinadores e para com eles próprios é uma das maiores ferramentas para a sua evolução e para alcançarem os seus objetivos.

No âmbito desportivo procuro que ganhem o gosto pelo jogo. O gosto pela vitória, mas por uma vitória em que eles tenham noção que foi por mérito deles e não por um acaso que vai ocorrendo de vez em quando. Procuro passar-lhes princípios coletivos e individuais em que eu acredito, e que acredito que pode faze-los evoluir e progredir dentro deste desporto.

Se acabam por ganhar estas coisas ou não sou mesmo capaz de responder, quero acreditar que ganham, mas isso só eles o podem responder.

 

Quais são os desafios que a direção lhe lançou para este ano e quais são os desafios que se lançou a si mesmo?

 

Numa primeira fase da época enquanto treinador da equipa de juvenis B o pedido foi o de formar atletas e prepara-los para um contexto competitivo mais exigente que terão quando passarem na próxima época para a equipa de juvenis A.

Em termos desportivos o único pedido foi que dignificássemos o clube em qualquer campo que jogássemos.

Nesta segunda fase, e uma vez que houve a promoção da equipa técnica para os juvenis A, o grande objetivo é a manutenção desta equipa na divisão de honra da AF Lisboa.

 

Quais as propostas de melhoria que deixa ao adceo no campo do futebol?

 

A maior proposta que posso deixar é que nunca nos contentemos com o que já temos. O espaço para melhorar existe sempre.

Nesse aspeto, a direção tem sido impecável para com os treinadores sempre na procura de dar as melhores condições dentro das suas possibilidades nunca deixando que nos falte nada.

Infelizmente no nosso contexto os clubes debatem-se com uma grande falta de recursos humanos e financeiros. Meios estes que são indispensáveis para a melhoria de qualquer clube. Neste contexto seria muito importante a ADCEO munir-se de mais colaboradores para o futebol uma vez que se vêm sempre as mesmas caras a lutar por algo melhor, o que por vezes pode levar a alguma saturação da parte destes.

Em termos financeiros será sempre mais complicado, mas desenvolver iniciativas com vista a recolha de dinheiro a fim de melhorar as condições já existente será sempre uma dinâmica bem vista por parte de quem rodeia a ADCEO.

Em termos mais organizativos, é importante a constante melhoria na comunicação entre os diversos departamentos com que funciona o futebol, desde o topo (direção) até à base (treinadores).

De forma a não existir estagnação é importante haver constante dialogo entre a coordenação e os treinadores e mesmo entre os treinadores dos diversos escalões. A critica é sempre um ponto de partida para evolução de cada um, não a critica pela critica, mas sustentada com ideias de desenvolvimento para os problemas de cada um.

 

Qual o seu modelo de JOGo preferido?

 

O modelo será sempre ganhar. Só assim ganho a confiança dos que me rodeiam, neste caso dos meus atletas.

A grande questão é que há diversas formas de ganhar sem uma ser melhor que outra, tem tudo a ver com convicções e eu tenho as minhas. Não sendo algo rígido e estático o modelo é sempre algo adaptável a diversos contextos e circunstancias.

Não diria que tenha um modelo mas sim um conjunto de princípios que vão ser envolvidos por outros princípios tendo em conta esses contextos e circunstancias.

Ter algo rígido na minha opinião pode de certa forma limitar a evolução e formação dos atletas uma vez que apenas os prepara para “aquilo”, dai tudo ser mudável ou modificável.

Este trabalho não pode ser anárquico, tem de ter uma base, um modelo e planeamento. O tal conjunto de princípios dos quais não abdico, mas que podem sempre ser modificados ou adaptados tendo em conta o contexto.

 

 

 

Onde vê a adceo daqui a 5 anos?

 

Dentro dos próximos 5 anos vejo a ADCEO a disputar campeonatos nacionais.

A ADCEO tem conseguido ter e manter nos seus quadros gente competente que tem conseguido desenvolver um trabalho muito bom na formação. Isso é visível olhando para as boas gerações que disputam atualmente os mais diversos quadros competitivos no clube.

Alem disso a ADCEO é neste momento um clube apetecível. Não é por acaso a procura no que ao escalão de juvenis diz respeito. No verão tivemos cerca de 40/50 atletas a treinar à experiência com o objetivo de fazer parte do clube. Isto não é por caso.

Conseguindo manter estas boas gerações e formando com qualidade as próximas os atletas começam a olhar para a ADCEO como um clube seu e não um clube de passagem. Ter uma grande maioria de jogadores que passaram pela formação na ADCEO a fazer parte do plantel sénior dá aos mais jovens a garantia de que ali não são só mais uns, mas sim que fazem parte do presente e do futuro do clube.

 

Onde quer estar o treinador Tiago daqui a 5 anos?

 

A disputar campeonatos nacionais de forma constante, de preferência na ADCEO ou contra a ADCEO. Seria um sinal que o objetivo de evolução de ambos estava a ser concretizado.

Essencialmente quero estar onde me sentir bem e onde as pessoas que liderem confiem em mim e no meu trabalho. Onde haja compromisso de ambas as partes para realizar o melhor trabalho possível.

Obviamente que todos ambicionamos estar no topo e eu não fujo a regra.

 

 

 

 

 

O treinador tiago é hoje um melhor homem ou um melhor treinador de homens?

 

O Treinador Tiago é essencialmente um treinador bastante satisfeito com o percurso até agora. Nestes 5 anos que levo de carreira no treino tenho dado passos seguros que já me levam a estar num patamar competitivo muito bom.

Sou sem dúvida um melhor homem por todas as ligações que tive e tenho com gente deste “mundo” que me fazem evoluir constantemente não só no futebol mas também no mundo fora dele. Agregado a isso sinto-me a evoluir todos os dias como treinador e muito o devo a quem me rodeia.

Estar disposto a ouvir, aceitar e refletir sobre tudo o que me vão dizendo faz-me evoluir sem dúvida nenhuma tanto como homem como treinador de homens.

Na verdade espero ir sempre evoluindo nas duas características, mas espero no fim, quando tudo acabar ter a noção que fui um bom treinador de homens, mas ainda um melhor homem.